Carta Aberta dos Democratas de Sorocaba ao prefeito Vitor Lippi

Prefeito Vitor Lippi,

O seu partido, PSDB, e o nosso, os Democratas, são os principais parceiros políticos nos cenários estadual e federal, desde a eleição de Mário Covas, há 15 anos.
Em Sorocaba, unicamente pela polarização entre os nossos candidatos a prefeito, se revezando nas pesquisas eleitorais entre o primeiro e o segundo lugar desde 1996, não tinha sido possível essa parceria, até o ano passado.
Em 2008 o nome de Crespo comparecia em segundo lugar em todas as pesquisas de opinião, superado apenas pelo seu nome, Vitor. O encaminhamento natural seria, portanto, os Democratas enfrentarem novamente o PSDB.
Mas você fez contato com Crespo em junho de 2008, convidando para uma aliança. Depois de muitas reuniões de avaliação, pessoais e partidárias, tanto no DEM como no PSDB, chegamos juntos a um acordo de equilíbrio: Crespo desistiria da candidatura a prefeito e apoiaria você. Isso resultou na excelente votação que sufragou o seu nome para o 2º mandato.
O presidente estadual do DEM, Gilberto Kassab, e o deputado estadual Rodrigo Garcia, foram os mentores e importantes testemunhas do acordo que fechamos.
Em troca da nossa desistência e apoiamento, Vitor, você ofereceu três secretarias municipais no futuro governo. Queríamos também a vice-prefeitura, como tem sido natural nos acordos eleitorais entre os nossos partidos. Diante de resistência, abrimos mão disso e aceitamos a sua proposta. Seriam quaisquer três secretarias, não importando o mister e a fatia orçamentária, pois ficou muito claro que o nosso interesse nesses cargos era simplesmente emblemático, finalmente a união dos nossos partidos também em Sorocaba. Um acordo legítimo e ético.
Essa foi, Vitor, a sua palavra empenhada. Felizmente, tomados por uma saudável precaução, no mesmo dia em que você a empenhou, confirmamos esse acordo com seus dois maiores articuladores, Flávio Chaves e Antonio Pannunzio.
Acreditamos mesmo, Vitor, que estávamos falando com um homem honrado, uma pessoa do Bem, e que estávamos inaugurando uma nova e duradoura fase de entendimento político entre os nossos grupos, para o bem de Sorocaba e da sua gente.
Em dezembro de 2008, você e Crespo estiveram juntos no gabinete de Kassab, em São Paulo, quando os dois prefeitos se cumprimentaram pelas respectivas vitórias e você fez questão de reafirmar que cumpriria o acordo feito em Sorocaba.
Mas situações estranhas começaram a acontecer.
Sempre que perguntado pela imprensa sobre nosso acordo, Crespo respondia com sinceridade e transparência sobre as três secretarias, pois isso é normal em qualquer coligação eleitoral, com reflexos no futuro governo. Mas você, Vitor, sempre demonstrou um certo desconforto e até irritação com essa pergunta, o que passou a nos intrigar.
Logo depois você começou a negar que esse acordo tivesse sido celebrado, durante semanas, somente parando com esse falso procedimento quando os jornalistas procuraram Flávio e Pannunzio e esses dois desmentiram você, numa atitude corajosa deles e vergonhosa para você, acabando com a controvérsia.
Ainda durante dezembro, você chamou Jair Molina, um dos melhores engenheiros da cidade e membro do DEM, e convidou-o para assumir a pasta de Parcerias. Mas no dia seguinte disse que Pannunzio exigiu essa vaga e mudou o convite a fim de que Jair fosse o secretário de Trânsito, que seria separado da Urbes; dois dias depois voltou atrás e disse que Jair ficaria com a secretaria de Transportes, numa situação provisória, e que apesar do título, não cuidaria nem de transportes, nem de trânsito.
Quanto à 2ª. e à 3ª. Secretarias, você disse textualmente que “tão logo” fosse possível, isso seria feito.
Aguardamos, Vitor, porque você parecia uma pessoa honesta e de bons costumes.
Sabe o que nos assustou? Não foi o fato de você desconversar e nunca cumprir com a sua palavra empenhada. O que nos assustou foi a sua displicência de deixar o ano passar sem nem mesmo definir as atribuições que a “nova” secretaria deveria executar.
Você brincou com o dinheiro público, Vitor. Embora fossem apenas três pessoas, além do engenheiro Molina, a sua inoperância custou caro aos contribuintes. Sorocaba não merecia isso.
Jair Molina e sua pequena equipe, apesar disso, agüentaram firme e brilharam no cargo. Fizeram um ótimo trabalho de acessibilidade nas calçadas, que lhe foi entregue em junho, mas que você engavetou.
Fizeram o estudo técnico para acabar com as inundações na Praça Lions, que você ignorou.
Analisaram a viabilidade da construção da Marginal Direita do Rio Sorocaba, cujos resultados você nem quis ouvir.
Ainda assim, Jair Molina inovou e lutou com bravura: fez contatos diretamente com a Divisão de Obras do Exército e estava desenvolvendo, sem custos para a Prefeitura, um excelente projeto de contorno ferroviário para Sorocaba, com duas grandes vantagens: abrir caminho para o aproveitamento da atual ferrovia como um metrô de superfície, e levar os novos trilhos ao novo cinturão industrial, na vizinhança da Toyota.
Acreditamos, Vitor, que você merece os secretários que ainda lhe restam, e mereceu também alguns que saíram. Mas você não mereceu o secretário Jair Molina, bem como não mereceu o secretário coronel Abreu.
O seu governo está se apequenando, Vitor. Isso é mau para você, mas é pior para Sorocaba.
A exoneração de Jair Molina não prejudica os Democratas, porque não estávamos “tirando vantagem” dessa secretaria. Queríamos apenas colaborar, e tenha a certeza, Vitor: se sua mentalidade e seu caráter fossem outros, poderíamos colaborar muito mais.
A exoneração de Jair Molina e da pequena equipe dele, não prejudica essas pessoas, pois seus currículos falam mais alto.
Nesta manifestação, triste mas serena, falta dizer algo mais: nosso acordo eleitoral, que era para ser também um acordo de governo, não tratou do mandato de Crespo como vereador. Portanto, quando Crespo assumiu um comportamento ético, cívico, de apoiamento e seriedade sim, mas de independência e valorização do Poder Legislativo, ele não faltou com qualquer palavra empenhada.
Você poderia nem ter nomeado Jair Molina, ou poderia tê-lo exonerado antes, a qualquer momento. Mas não poderia ter justificado a demissão dele alegando “conflitos políticos na Câmara”. Que “conflitos” foram esses, Vitor? Você não aceita vereadores capazes e verdadeiramente atuantes, na “sua” Câmara?
Você poderia ter poupado a cidade dessa frase, Vitor.
Povo de Sorocaba: esta manifestação é a Verdade que tinha que ser revelada neste momento.
Mas o Partido Democratas de Sorocaba e o seu representante na Câmara, vereador José Crespo, apesar de tristes, estamos também esperançosos porque dias melhores chegarão, quando a cidade finalmente sairá das páginas policiais.
Mesmo sem secretarias ou cargos, continuaremos colaborando com o seu governo, Vitor, pois Sorocaba é muito maior do que você.
Vamos continuar apoiando todos os bons projetos na Câmara, sejam projetos dos vereadores ou do prefeito, e vamos continuar louvando todas as boas obras e bons serviços prestados ao nosso povo. “Transparência e Fiscalização” continuará sendo a nossa meta, além de ser a nossa obrigação.
Finalmente, caro prefeito Vitor Lippi, um conselho de verdadeiros amigos, aqueles capazes de dizer que “o rei está nu”: quando fizer um acordo, quando empenhar a sua palavra, cumpra (ou não faça acordos), pois quem quer ser “esperto” atropelando todo mundo aos seus interesses, perde totalmente a credibilidade.

Executiva do Partido Democratas de Sorocaba, em 28 de novembro de 2009.